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Carro movido à cachaça

Com equipamento certo, produtores podem aproveitar a parte menos nobre do processo de fermentação da cana para produzir etanol e abastecer seus veículos

   

A cachaça DJ, produzida em São Gonçalo do Pará (Centro-Oeste de Minas), só chega ao mercado no fim deste mas a plantação de cana da fazenda do Engenho, onde ela é produzida, já rende frutos aos proprietários. Desde a primeira colheita, há dois anos, o alambique que produz a bebida tem a acoplado uma coluna de retificação, que transforma os subprodutos da destilação em etanol. A produção do combustível, que este ano chegará a 10 mil litros, é suficiente para abastecer os quatro carros da fazenda e gera um economia mensal de R$ 1.600.

“Quando fizemos o projeto para fabricar a cachaça já pensamos em fazer etanol também para evitar o problema ambiental e fazer economia”, diz o diretor de produção da DJ, Lander Moreira Gonçalves. A economia só não é maior porque os veículos usados na produção, como tratores, são movidos a diesel e a legislação impede que pequenos proprietários comercializem o etanol, mesmo se for para consumo próprio. A fazenda tem 30 hectares de área plantada e produz 200 mil litros de cachaça por ano.

O processo de moagem e destilação de cana culmina em três sub-produto: cabeça, coração e cauda.

O coração é a parte nobre e dá origem à cachaça. Os outros dois subprodutos, que equivalem a cerca de 20% da produção, normalmente são descartados.
Na fazendo do Engenhol, os carros são abastecidos com o etanol produzido lá mesmo, gerando economia e impactando menos o meio ambiente.

“O certo é ter um tanque de decantação e reaproveitar isso como fertilizante, mas infelizmente não é isso que acontece”, diz o diretor técnico da Associação Mineira dos Produtores de Cachaça de Qualidade (Ampaq), Luiz Felipe Cortês da Silva. Outro destino comum da cabeça e da cauda é o ser misturada ao coração, o que piora a qualidade da bebida.

Mas os subprodutos podem ser aproveitados e bem pelo produtor. Basta adaptar o alambique com as colunas para fabricação de etanol a parir dos resíduos da cachaça (a cabeça e a cauda). Esse item custa a partir de R$ 11 mil, segundo os produtores. O produto está no mercado há cerca de três anos, mas a demanda cresceu depois que o combustível  ganhou destaque internacional como alternativa de energia limpa. Na D & R Alambiques a venda, que era de quatro unidades por ano, agora é de quatro por mês.

 

Investimento

A regulamentação de venda do etanol produzido em pequenas propriedades pode ajudar a reduzir informalidade na produção de cachaça em Minas. De acordo com o presidente do Sindicato da Indústria de Bebidas de Minas Gerais (Sindibebidas), Cristiano Lamego, a idéia é transformar quem hoje produz a bebida de maneira clandestina em um pequeno empresário formal na área de combustível. Dos 9000 alambiques em funcionamento no Estado, 8500 são irregulares. “Podemos canalizar este pessoal para o etanol”, diz Lamego.

De acordo com ele, o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) é o grande responsável por afastar o produtor de cachaça do mercado formal. Enquanto o cachaça industrial é taxada, em média, em R$ 0,38 por garrafa, o produto artesanal ou de alambique paga R$ 2,23, em média, por garrafa. O Sindibebidas pretende realizar um estudo de viabilidade técnica para avaliar a migração do produtor de bebida para o mercado de combustível.

Matéria publicada em 08/07/2007 – JORNAL O TEMPO

 
 
 

 

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